Alessandra Januário Cintra

 

Pensei por diversas vezes sobre qual caso específico poderia escrever. Dentre
tantos que esbarrei nesses doze anos, seja como “caloura”, como vareira,
como estagiária ou como advogada, qual descrever? Qual mais me tocou?
Vi uma mãe pedindo justiça pela perda de uma filha em um caso de violência
obstétrica. Presenciei o temor de uma mulher vítima de atitudes impensáveis
de violência doméstica. Tentei calcular como dividir alimentos a nove filhos com
um mísero salário mínimo. Demorei anos, inclusive, para deixar de me envolver
visceralmente naquelas questões, que aos olhos do código eram meramente
jurídicas. Aprendo, sim, muito de Direito; diria – que as Arcadas não me
escutem – muito mais que na Faculdade. Mas o DJ (quando há carinho
buscamos o apelido), me ensinou sobretudo sobre gente.
Gente, pessoas, seres humanos, nas suas mais profundas qualidades e
defeitos. Presenciei amores genuínos e profundos. Brigas descabidas.
Solidariedade. Egoísmo. Aprendi que juízes são gente também. E, aí, aprendi a
ter coragem para impor essa igualdade, fazendo a fala embargada se sobrepor
em uma audiência para dar voz àqueles que ninguém escuta.
Aliás, neste quesito, quanto medo superado. O DJ me ensinou a não temer
falar em público quando presenciei 500 pessoas no Salão Nobre olhando
fixamente para mim. Me ensinou a não temer quando me perdi – por mais de
uma vez – para ir a algum fórum por pegar o ônibus errado. Me ensinou a amar
o diálogo ao presenciar uma Assembleia Geral para expulsão de membro. Me
ensinou a tolerância ao visualizar que nem todo caso abandonado é
efetivamente descaso. Me ensinou a observar (muito) antes de julgar o outro,
porque há tanto nas entrelinhas.
Da minha vida, quase metade estive presente na Praça João Mendes, 62.
Trouxe daí todos os meus melhores amigos. Porque DJ une ideologias, ainda
que hajam diferenças. Aliás, agradeço pela paciência que cada estagiário teve
ao me ensinar um novo olhar sobre o mundo que avança. Aprendi sobre a
insuficiência do binarismo de gênero, aprendi sobre feminismo, sobre racismo.
Pacientemente, os estagiários me mostraram como eu poderia me tornar um
ser humano melhor. E eu, que em tese estava ali para ensinar, aprendi a ser
menos crítica (com os outros e comigo mesma).
E quando optei por me desligar – de corpo, porque a alma lá permanece – uma
sensação de que tudo desandaria me dominou. Quanta pretensão. E, ao fim, que alegria. Eu descobri que o DJ tem alma própria e que não depende de um
alguém em específico para prosseguir. O DJ é feito de vários alguéns que
também gostam de gente. E que lá vão deixando um pouco de si e carregando um
pouco do que há. Esse amor pelo outro foi de anos em anos, de décadas em
décadas, sendo o combustível dessa “máquina” da Democracia e da dignidade.
Em tempos tão sombrios, sei que o DJ segue executando o que faz de melhor:
defendendo gente, resguardando as liberdades, lutando pela igualdade. E eu
não conseguiria resumir tanto, em um só caso.

 

 

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