Fernanda Tartuce

 

Das folhas rasgadas aos improváveis sorrisos

           Rivaneide parecia estar bem chateada quando chegou ao Departamento Jurídico(DJ): ao ser atendida trazia, além do semblante aborrecido, algumas folhas rasgadas. Mostrou-a contando que morava no cômodo superior da casa da mãe Jailda; as duas tiveram uma briga feia e a mãe a expulsou de casa. Como Rivaneide se recusou a sair, semanas depois Jailda moveu contra ela uma ação de reintegração de posse. Segundo Rivaneide, quando o oficial de justiça foi ao endereço atrás delapela segunda vez, encontrou apenas Jailda e a esta entregou cópias (do mandado de citação e da petição inicial) dizendo que as entregasse à filha. Ela o fez, mas não sem antes rasga-las e entregar metade das folhas à filha.

           Obviamente seria inviável entender a versão de Jailda e promover a defesa de Rivaneidea partirdaquele papeis rasgados… fuientão ao fórum, como estagiária, em uma sexta feira ensolarada do ano de 1999 para poder atuar melhor.

            A ideia era simples: reportar ao juiz a falha na atuação do oficial de justiça (que entregou a documentação à autora e não à ré), pedir uma cópia da integra da petição inicial e a devolução de prazo para que o termo inicial da defesa passasse a contar a partir daquela data. Na prática só houve dificuldades: o juiz custou a me receber, ao me ouvir não acreditou no que aleguei e indeferiu tudo o que pedi. Pensei em recorrer, mas no fim achei melhor tirar cópias do processo por minha conta e cuidar da defesa de Rivaneide.

            Apresentada a resposta – o juiz não tinha concedido liminar, então ambas ainda moravam na mesma casa-, houve designação de audiência conciliatória para dali a 15 dias. Ao chegar no corredor do fórum com Rivaneide trinta minutos antes da audiência, ela me mostrou Jailda, que estava sozinha. Sua procuradora (que pertencia à Procuradoria de Assistência Judiciária – PAJ – do Estado de SP) e a advogada colaboradora do DJ ainda não haviam chegado.

            Ao olhar para Jailda, constatei o mesmo semblante aborrecido que vi em Rivaneidedesde o primeiro dia de atendimento. Com esta então comecei a conversar, perguntando como se sentia,como queria resolver a situação com a mãe… ela disse querer se entender com Jailda o quanto antes. Estimulei-a então a pensar em como falar calmamente com a mãe, eu ia checar se esta também queria conversar.

            Aproximei-me cuidadosamente de Jailda e disse sera estagiária do DJ que atendia Rivaneide; perguntei se ela estava bem, se queria e podia conversar com a filha… sem titubear ela disse “sim, sim”. Eu disse que a filha também queria falar com ela e que poderiam ter uma conversa calma ali.

            Voltei para Rivaneide, perguntei se ela estava pronta e contei que sua mãe também queria conversar. Ela foi então até Jailda; embora com muita vontade de acompanhar Rivaneide, eu me contive porque senti que poderia atrapalhar.

            Não foram muitas as palavras trocadas… a conversa parecia não render. Pensei que logo Rivaneide voltaria dizendo que não deu certo. Mas aí, de repente, elas se abraçaram. Haviam se entendido… e os semblantes chateados cederam espaço a sorrisos.

            Elas vieram ao meu encontro dizendo que tinham feito as pazes. Nesse momento chegaram a procuradora de Jailda e a advogada colaboradora do DJ. Quando contei sobre a reconciliação, ambas se mostraram satisfeitas e orientaram suas constituintes sobre aspectos jurídicos do fim do processo.

             Logo fomos chamadas para entrar na sala de audiências; o juiz nos cumprimentou com muita seriedade e falou do intuito conciliatório da audiência.

             Quando perguntou se havia acordo, a advogada colaboradora do DJ disse que sim. Pediu que eu, embora estagiária, pudesse comunicar a iniciativa exitosa. Com a permissão de todos, contei brevemente que as duas se dispuseram a dialogar e conseguiram se entender. Elas confirmaram que estavam bem agora e Jailda disse não mais querer seguir com o processo.

             Mais uma mudança de semblante: o juiz sorriu também! Disse que estava muito satisfeito e que se todos os processos transcorressem daquela forma, a Justiça funcionaria melhor! Começou a me perguntar onde estudava, comentou sobre ter estudado também na Faculdade de Direito da USP… fiquei um pouco surpresa porque ele não parecia o magistrado que tinha sido tão severo na primeira oportunidade em que o vi. Aprendi então que o êxito em conversações pode gerar transformações consideráveis em corações rasgados e semblantes aborrecidos; viva a comunicação pacificadora!

 

WhatsApp Image 2019-05-08 at 17.52.52